6 de julho de 2017

Saudade.

     Toda lembrança é um pouco de saudade. Saudade só se alimenta de presença, do contrário, são memórias que levamos na bagagem da vida. Aquela casa antiga, aquela amizade que se perdeu no tempo, o animal de estimação que partiu, o ente querido que não pudemos nos despedir em vida, enfim, saudade é uma lembrança - nem sempre tão boa. Estamos de passagem, apenas um vagão em que as coisas acontecem e uma hora estaciona na eternidade, essa é a condição da vida. Saudade é um perfume de mãe, um doce de vó, um abraço de despedida, uma lágrima pesada que nunca escorreu. Esquecemos durante a rotina que cada dia é um presente, uma oportunidade, uma nova chance, não sabemos o dia em que essa chama irá se apagar e acender em outra dimensão, longe do cáos, do barulho, da rotina e dos desejos materiais que ora ou outra carregamos como combustível de satisfação carnal e prazer. Saudade é ter certeza de que aquilo que se foi, já cumpriu sua missão no espaço de tempo em que esteve presente, seja para uma partida entre planos astrais, seja para seguir outros caminhos. Saudade é o cheiro da comida da vovó, dos desenhos animados nas manhãs de sábado, das brincadeiras de rua, do primeiro beijo, dos castigos na infância, da ansiedade para pegar o boletim na escola e também das paixões platônicas da adolescencia. Já dizia Clarice Lispector, "Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come presença." 


 Somos todos um pouco de saudade, de lembrança, de passado, do ontem que não volta. Saudade é sentimento saudável também, se veste de momentos e memórias, presentes dentro de cada um de nós, são correntes e cadeados que arrastamos ora como fardo, ora como brinde. É preciso saber carregar com maestria para não pesar as costas.


Saudade é perfume, sabor, cor, lugar, lágrimas, música, fotografia, objeto, sabor, entre muitas outras coisas que podemos reviver vez ou outra na memória ou como dejavù. Nessa estrada da vida há sempre uma bagagem destinada somente à saudade, ela que ninguém nunca viu, vez ou outra resolve aparecer, invisível e silenciosa, como uma brisa passageira, sem pretenções, somente armada de planos que tocam suavemente nossa alma e nos embalam em outra dimensão. Saudade se define em graus de intensidade e não escolhe a hora que irá vir, saudade é imprevisível, sem hora, dia ou lugar. Ela simplesmente aparece, entra sem bater e devasta também. Saudade é assinatura com firma reconhecida de que vivemos, colecionamos lembranças, pessoas, lugares, cheiros, momentos. Saudade pode ser doce ou amarga, pode ser nó ou sorriso, saudade é metade ou parte inteira, é sensação de despedida sem hora de reencontrar e também reencontro, é relógio parado, tempo distante, copo cheio ou vazio. Saudade é tatuagem, saudade é sensação, fogos de artifício, emoção, intensidade, saudade é eternizar. Saudade é uma mala cheia de histórias, é um mural de fotografias antigas e bilhetes, saudade é o ontem que não volta e o amanhã que será saudade depois de amanhã.


Até breve.

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